Muitos livros sagrados (do latim sacrare, “que é digno de respeito ou reverência”) são hoje acessíveis a todos em versões transcritas, e nessa forma podem ser compartilhados com toda a população do planeta.

Para a maioria, porém, passa despercebido que sua história teve início em um tempo em que a transmissão oral era essencial – porque poucos sabiam ler e escrever, porque a impressão não havia sido inventada e talvez e principalmente porque os antigos conheciam e valorizavam o peso da palavra transmitida oralmente.

Vedas

A primazia da transmissão oral do conhecimento talvez seja mais clara no Hinduísmo, segundo o qual o conhecimento divino é revelado de tempos em tempos, nos Vedas. Muitos historiadores consideram os Vedas os textos sobreviventes mais antigos da humanidade, estimando-se que suas partes mais novas datem a 1000 a.C., enquanto os mais antigos – os Hinos Védicos ou Samhitas (Rigveda) – sejam do século XIV a.C. ou antes, mas a maioria concorda que uma longa tradição oral existiu antes.

Representam o mais antigo extrato de literatura indiana e, de acordo com estudiosos modernos, foram escritos em uma linguagem que depois evoluiu para o sânscrito.

Bhagavad-Gita

A escrita foi introduzida como um auxílio para as pessoas com dificuldades de memorização, e era sempre corrigida pela tradição oral. O livro sagrado mais popular do Hinduísmo, o Bhagavad-Gita, foi recitado como poema épico por séculos antes de ser transcrito, em torno do século II a.D., revelando para o resto do mundo a ideia hinduísta de encarnação como forma de evolução. 
O Budismo da Índia compartilhou com o Hinduísmo a ênfase da transmissão oral sobre a escrita. Dos tempos de Gautama Buda (500 a.C.) até o século I da era Cristã, a Tripitaka foi transmitida oralmente, e só escrita para evitar futuras perdas do conhecimento.
O seguidor mais próximo de Gautama, Ananda, recitou todas as palavras que lembrava de sua convivência com o mestre, finalmente compiladas e codificadas em tratados chamados Sutras. No início, eram escritas em folhas de palmeira e guardados em três cestos: daí o nome Tripitaka, que significa “os três cestos do conhecimento”.

Torá

Embora as religiões Judaica e Cristã tenham se organizado a partir de um texto básico escrito, o Velho Testamento, suas histórias foram feitas através da força da transmissão oral.

No Monte Sinai, Deus fala a Moisés sobre a aliança entre Ele e seu povo, e lhe transmite os Dez Mandamentos por volta do século XIII a.C. De acordo com a tradição, nos quarenta dias em que ficou sozinho no deserto, Moisés recebeu também o Pentateuco (ou os cinco livros: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), que juntamente com os Profetas e os Escritos – Salmos e Provérbios – compõe a Tora.

Os rabinos hebreus pregavam a Tora, lendo, interpretando e comentando seu conteúdo. A forma final da Tora data do século III da era Cristã.

Novo Testamento

Cristo não escreveu seus ensinamentos, mas os transmitiu por meio de estórias, parábolas e provérbios.

O conhecimento transmitido por Jesus, bem como seus atos e história de vida não foram escritos por seus discípulos imediatamente, mas também divulgados oralmente.

Cerca de 30 anos após sua morte, os Evangelhos começaram a ser escritos, trabalho que durou perto de 100 anos para ser concluído. Os Evangelhos, mais as cartas dos apóstolos e a Revelação ou Apocalipse de João formaram o que hoje é conhecido como o Novo Testamento da Bíblia.

Alcorão

Também no Islamismo, a palavra sagrada é fundamentalmente oral. Alá falou a Maomé suas revelações através do anjo Gabriel em meados do século VII a.D., instruindo-o a ouvir e recitar a seu povo palavra por palavra do que lhe havia sido confiado.

Seus seguidores ouviram, memorizaram e recitaram o Alcorão para outros, e assim as revelações divinas eram transmitidas de geração a geração. Na forma atual, o Alcorão parece datar da coleção de materiais feita no califado de Uthman (em torno dos anos 644 e 656).

A explicação mais frequente do por quê destes textos terem sido escritos é que as pessoas envolvidas com o conhecimento oral tiveram medo de que fosse perdido, ameaçando a própria cultura dessas grandes religiões.

Mas como já diziam Sócrates e Platão, a força da palavra oral é inestimável. Além destes livros sagrados mais conhecidos, são ainda dignos de nota: o Livro dos Mortos (Egito, séculos XV a XI a.C.), o Cânon Confuciano (China, século XII a.C. ao século II a.D.), a Zohar, texto da Cabala, a vertente mística do Judaísmo (Espanha, século XIII a.D.), entre outros.

COWARD, H.  Scripture in the world religions.  Boston: Oneworld Publications, 2000.
HINNELLS, J et al. Dicionário das religiões.  São Paulo: Círculo do Livro, 1984.

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